Archive for dezembro \13\UTC 2007

Uma coisa meio terça insana

13/12/2007

 

 

Ele entra em cena de óculos fundo de garrafa, calça no umbigo, caminha lento e diz:

 

– Boa noite.

 

Poucos na platéia respondem. Ele abaixa a cabeça, mexe nas unhas dos dois indicadores, tímido, e continua:

 

– Só se for pra vocês. Pra mim, nenhuma noite é boa. Eu tenho insônia nas noites…

– Meu nome é Tristão. Tristão Alves Medina. Não, nunca conheci nenhuma Isolda. Nem nunca vi nenhuma Isolda. Alguém aí conhece alguma Isolda?

(entredentes, ele rosna: Nome desgraçado esse!)

– Eu nasci com astigmatismo. Quem vê de longe, pensa que eu tenho miopia, eu não vejo. Quem vê de perto, pensa que eu tenho hipermetropia, eu também não vejo. Mas na verdade eu tenho os três. E por isso, eu não vejo.

– Mas não é por isso que eu não estou olhando pra vocês. Sim, sou estrábico também. Sou tão vesgo, mas tão vesgo, que quando eu choro a lágrima sai do olho e me molha a nuca.

– Se eu olhar pra vocês, aquela moça lá do fundo, à direita, vai pensar que estou dando em cima dela. E esse velho gordo, aqui da esquerda, vai achar que eu sou veado. Eu fora, velho. De feio na relação já basta eu.

– Menos mal que meus problemas de visão nunca evoluíram. Na verdade nada em mim evolui. E eu acho que essa foi a única sorte que eu tive na vida. O meu câncer, por exemplo, faz 16 anos que tenho e ele nunca evoluiu.

– Ainda assim eu poderia dizer que tive uma vida boa, uma infância boa…

– Mas não tive!

– Eu não tive nada bom, só meus pais.

– Meu pai era um muito bom traficante. Minha mãe uma boa prostituta.

– Até hoje tenho dúvidas pra quem entregar o presente no dia dos pais.

– Não posso dizer que a gente era pobre, pra isso a gente teria que ter economizado muito.

– Casar? Não… Casamento nunca foi um sonho(seca uma lágrima). Não, não… Nunca tive uma namorada. Aliás, deve ser por isso que até hoje eu sou virgem. Mas recém fiz 42 anos, tenho tempo. A expectativa de vida no Brasil tá crescendo. E o viagra está aí.

– Como começou minha depressão? Não sei… acho que foi meio sem motivo…

– Sempre achei esse negócio de depressão uma frescura da minha família. Nunca acreditei que fosse um depressivo.

– Aquela vez da gilete foi um acidente. O muro da sacada, porra meu, era muito baixo.

– Os atropelamentos? Ahhh não, aí não… vocês já viram quantos carros têm pelas ruas? Uéhhh, me distraí, oras… E não me venham com essa de várias vezes. Todos os dias tem carros nas ruas. Acontece!

– Tá, eu sei que a minha pobreza foi um pouco traumática e talvez contribua, mas choro tanto quando vou lá na psicóloga, que até hoje não consegui conversar com ela.

– Eu reconheço que se eu tivesse tido uma mulher, e nem precisava ser uma Isolda (que nome desgraçado!, sussura…), as coisas teriam sido mais fáceis.

– Mas muito cedo eu aprendi que mulher só gosta de homem com pau grande ou com dinheiro! Desde então eu jogo na loteria em todos os concursos. Há 28 anos. Nunca falhei um!

– O dono da loteria é a única pessoa que fica feliz ao me ver. Foi ele quem me deu o único presente de Natal que ganhei na vida. Inesquecível aquele chiclete.

– Tarde agora??? Só se for pra vocês. Pra mim, tanto faz. Eu nunca durmo de noite. Aliás, quase nunca… ontem, depois de 29 anos, eu dormi. A primeira noite em quase 30 anos. E vocês não vão acreditar. Eu não gostei.

– Nas madrugadas eu tinha uma espécie de pesadelo. Mesmo acordado eu tinha o sonho de poder dormir e sonhar. Mas eu não sonhei. Tive um pesadelo.

– Um pesadelo terrível. Sonhei com um bebê (dois, cinco) completamente birolha, suburbano (um, três) e literalmente um filho da puta (zero, sete). Ele cresceu depressivo (cinco, um) tornou-se um alucinado por dinheiro (três, dois) que volta e meia sofria uns acidentes estranhos (dois, oito), parecia um suicida, sei lá…

– Achei aquele pesadelo totalmente sem sentido!

– Pensei muito, imaginei várias coisas, mas não tinha jeito. Nada parecia ter conexão.

– Muito menos aquelas seis dezenas que se repetiam incessante e seqüencialmente durante o sono.

– Foi aí que me veio um pensamento meio fora de contexto, meio nada a ver, e tive a idéia gratuita de jogar aqueles números na loto.

– Teria dado tempo, se eu não tivesse dormido tanto tempo. Perdi o horário de fechamento das apostas, pela primeira vez naqueles anos todos. Mas não dá nada, nunca ganho mesmo…

– Tanto que eu não ia nem conferir… mas acabei conferindo…

 

– Alguém aí tem uma gilete?

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Fundo do baú ll

11/12/2007

[continuação…]

A harmonia das pessoas às mesas me desarmonizava comigo mesmo. Os copos me representavam a vida aos goles, que se iam consumindo… a minha me parecia estar jogando fora, só que, garganta adentro. Olhei a lua e me saltou dos lábios, sussurada pra mim mesmo, uma frase: “A lua cheia expõe ao ridículo o tamanho do meu coração, mas o que a tua ausência causa nele, ridiculariza as crateras dela”. O tamanho gigante da lua e seus enigmas me fizeram pensar naquilo. Por mais cheio de vazio que estivesse meu coração, por mais que dentro de mim parecesse não caber – o que era anatomicamente evidente e fisicamente lógico – o meu pensamento de que ele é minúsculo diante do todo, não me abandonava.

Acho que isso me queria fazer crer que por maior representação de dor que essa falta me faça, nada é – afora pra mim – diante da existência. E para meu azar, a minha dor na existência só tem importância pra mim. Devia estar claro, nessa hora, que precisava aceitar as coisas como são e estão. Mas não é assim tão simples saber o que é ter um amor meu senhor e por ele quase morrer… Eu ainda era capaz de ouvir o que as vozes emanavam lá de dentro do bar. Então notei que se ela, Lua, me encabulava por provar que era ridículo o tamanho de mim e do meu algoz coração, pude também notar que eu, a ela, tinha algo a ensinar. E a coloquei em seu lugar quando demonstrei o terreno acidentado do meu coração, numa fluidia transmissão de sensações, através de um simples olhar – estou certo disso – ela pôde notar a infimidade de suas imponentes crateras.

– Coloca-te em teu lugar. Recolha-te a tua insignificância, ó lua. Diante de meu amor não és nada. – disse eu, com certo desdém ao satélite natural.

E com essa frase tomei a rua, ganhei as estrelas, a escuridão da noite, as trevas de mais um dia de vida(?), e me fui com a dor de uma saudade, o silêncio de uma lágrima rolando no rosto, o peso de um lamento, mas também com a luz. A luz da infindável e solitária companhia da lua.

 

Fundo do baú (bom para o projeto “Saindo da gaveta”)

05/12/2007

Diálogo lunático?

A vida que me ensinaram como uma vida normal tinha trabalho, dinheiro, família filhos e tal… Aos tenros anos a descobri, inclusive. Mas algo deu errado como um final de filme iraquiano. Hoje vivo de bar em bar, sozinho e catando pelo rabo da história e pelos cantos da memória aquilo que vi, ouvi e sonhei, de fato, desde criança. No bar de hoje, enquanto lá dentro a noite fluía igual a todas as outras e com todas as superficialidades humanas do interesse das pessoas na próxima relação sexual, eu estava do lado de fora do bar. Olhos ao longe e cabeça mais ainda, sabe-se lá quantos quilômetros distante.

A garrafa, envolta pelo meu sempre exigido isopor, repousava escorada na perna esquerda. Esta, flexionada e com o pé estendido em toda sua planta, na parede. Copo na mão direita. Esquerda no bico da garrafa e coração ali, onde miseravelmente se encontra há anos. As grades do bar e o portão, incrivelmente fechado à chave, ao contrário do que poderia sugerir, me davam uma sensação de prisão muito menor do que aquela sentida pelo meu peito com relação ao amor.

Amor.

Palavra curiosa, curta, porém vasta. E que nessa hora era cantada lá dentro. Eu sabia sem saber, ouvia sem ouvir. Aquele som servia de cortina, algo tão involuntário pra mim quanto um sopro de vento que nos lambe a pele enquanto corremos e que está ali, maravilhosa dádiva da criação da qual sequer somos capazes de notar. Tudo isso porque estamos exercendo nosso nobre poder de egoísmo. Egoísmo masoquista esse meu, de pensar em ti.

[continua…]