Archive for maio \30\UTC 2008

Por obséquio

30/05/2008

Se alguém me quiser ver morto:

Que se floreie, se anime,
se embeleze de alma, de música,
de humor, de poesia…
Apaixone-me, assim,
de si.
Então, de mim,
se tire.
Porque se for para matar-me,
por favor,
que seja de amor. 

Questão de ordem, Sr. Deputado!

29/05/2008

 
     Eu sou um dito homem honesto. Um cara correto, que paga seus impostos e, via de regra, anda dentro das leis. Infelizmente, por isso, não posso mais me atirar nos poços de elevadores Rio Grande do Sul afora. Na verdade não posso mais fazê-lo, desde 14/09/1999. Cerceado, eu, pela lei estadual de número 11.369, que proíbe o cidadão de cair nessas soturnas e verticais cavernas da era dos arranha-céus.

     Vocês nunca repararam naquela plaquinha:

“Antes de entrar no elevador certifique-se de que o mesmo se encontra parado neste andar. Lei estadual 11.369 de 14/09/99.”

     Onde já se viu um troço desses? O cidadão não pode mais nem se esborrachar à vontade. Eu sempre adorei cair em poços de elevador. Nunca me preocupei em ver se ele estava ou não no andar. Eu via a portinha se abrindo e me jogava num mergulho profundo. Tal qual, imagino eu, mergulhem os Srs. deputados que votaram essa lei. Só que eles, nas refrescantes piscinas de suas exibicionistas casas de Atlântida.
     Creio que todos vocês também costumem cair vãos abaixo. Coisa mais boa que era. Agora estamos proibidos, nós, os gaúchos. Será que nos outros estados ainda se pode cair livremente rumo às molas? Onde vamos parar desse jeito? Agora só falta quererem proibir as pessoas de atravessar avenidas movimentadas sem olhar para os lados. Ahhhh, não. Aí não!
     Enquanto nossos parlamentares preocupam-se, propõem, votam e aprovam leis como estas, coisas menos relevantes seguem acontecendo impunemente. Imperam e articulam livremente pelos porões financeiros do Estado os Macalões, os Culaus, e outros elegantes homens carecas, feios, velhos e pretensamente falidos. Virtudes, aliás, que muito justificadamente conquistam misses.

 

Diferenças

23/05/2008

Teu corpo perfeito, preciso.
De preciso, no meu,
só a imperfeição.
Meus olhos,
azul celeste.
Os teus,
celestiais.
És o equilíbrio,
até nos desamores.
Eu, nem no amor.
Mas não te creio melhor do que eu…
Não por isso.
Por que assim entenderia?
Se, nessa hora,
até certo ponto,
o que mais quero…
É tristeza, loucura e desequilíbrio.

 

Horrores fronteiriços

21/05/2008

Não que seja difícil encontrar notícias chocantes no Brasil, mas em meio a tantas manchetes de roubos, rombos e dos arroubos midiáticos de políticos nas cpi’s esferas afora… estou especialmente estarrecido, tocado, penalizado e compadecido com duas infelizes ocorrências além-aduaneiras.

A primeira é de extrema surpresa, e, mais do que isso, susto. Medo, talvez. A barbárie que apresenta e representa, horrorizaria por si só. Pois não bastasse isso, aterroriza ainda mais por ter partido de quem, tão inberbemente, partiu:

http://www.clarin.com/diario/2008/05/19/um/m-01675429.htm

(Aos preguiçosos, um resuminho traduzido: Dois irmãos, um de sete e outro de nove anos, assassinaram uma menina de pouco mais de dois. O cadáver foi encontrado num terreno baldio por crianças que jogavam futebol nas redondezas. O corpo havia sido golpeado com um pau, tinha um cabo amarrado no pescoço e estava nu. O crime bárbaro gerou protestos dos vizinhos, provocando conflitos entre populares e a polícia.)

Outra fatalidade, também ocorrida em bairro extremamente pobre, assolou o país vizinho na madrugada de hoje. O sinistro foi, agora, de caráter acidental, mas não menos pesaroso. E por mais que eu tente, me sensibiliza e entristece de forma profunda. Ocorrência assim torna cinza o mais luminoso dos dias, quem dirá um dia já cinza, como o dessa manhã Portoalegrense.

Muitas coisas me incomodam nisso tudo, mas me é torturante a inevitável presença da imaginação do pavor a que essas crianças foram submetidas. O medo, a dor, a impotência e a resignação que tiveram de assumir. O que me trouxe a lembrança da tragédia ocorrida em Uruguaiana anos atrás. Suplícios difíceis de entender e impossíveis de aceitar.

http://www.clarin.com/diario/2008/05/21/um/m-01676948.htm

(Aos preguiçosos, um resuminho traduzido: Cinco irmãos, com idades entre dois e 13 anos, morreram carbonizados num casebre em La Plata. Um menino de 11 anos foi resgatado e está internado em estado grave. As causas do incêndio estão sendo investigadas, mas se presume que as crianças estavam sozinhas em casa.) 

Ventilador nada… TURBINA!

19/05/2008

Nesse momento o ex-secretário de Segurança Pública do estado do Rio Grande do Sul, Enio Bacci, presta depoimento na CPI do Detran.

Lembro do tempo em que se dizia: Fulano jogou a merda no ventilador!

Pois o que Bacci está fazendo humilha até o mais forte dos “turbo master” da Arno e a mais fétida das fezes imagináveis.

Eu diria que o dispositivo utilizado pelo mandatário deposto, e atual deputado federal, foi uma turbina atômica… e serviu para jogar bosta, de estado pastoso e fedorento, num raio que abrange da Praça da Matriz até o alto do bairro Vila Jardim, onde se localiza a humilde residência de R$ 700.000,00 (quantos zeros, não?) da Governadora Yeda Crusius.

Ahhh… R$ 400.000,00 dos quais teriam sido pagos por Lair Ferst, um dos coordenadores da campanha de Yeda ao governo do Estado e empresário beneficiado em contratos superfaturados fechados sem licitação entre o Governo do estado e o Detran-RS.

 

O homem não se separa de quem ama!

14/05/2008

Rodrigo Alves de Oliveira existe, para tristeza de muitos e felicidade dele mesmo, há mais de 32 anos. Nasceu às 18:01h de um sábado, segundo ele “hora de se aprontar pra festa”, na cidade de “Guaíba, berço da Revolução Farroupilha”, como ele mesmo faz questão de falar. Aliás, o fato de nascer é emblemático para Rodrigo, que sempre diz ter sido uma das coisas mais importantes de sua vida. Afinal foi naquele 29 de novembro do ano de 1975, um dia depois da morte de Erico Veríssimo, exatamente às 18h02min que ele percebeu sua primeira grande paixão:

“Sniff, sniff, buá, buá, buá…” – informava ele, através do pranto.

Recém chegado ao mundo e sob pleno regime de ditadura militar no Brasil, não se achou imparcial o suficiente para ser capaz de julgar a tapa que levara do médico. Mas sentia que precisava informar a cada pai e mãe “grávidos” sobre o que se passaria na sala de parto quando seus rebentos rebentassem. Já notadamente influenciado por Mário Quintana e Chico Buarque, até hoje é seguidor de ambos.

Entretanto, na oportunidade etária tradicional de ingressar na faculdade, nosso protagonista estava apaixonado e sonhando com outras prioridades. Que, de preferência,  se equilibravam sobre longas pernas, delicados saltos altos e debaixo de cabelos longos. Resolvido, deixou para depois a paixão original, e convicto, entregou-se à esbórnia. Foi um período intenso, faceiro e de irrefutáveis memórias.

Logo depois, pessoalizou e individualizou sua paixão, transformando-a em amor e dedicando-se à monogamia (monogamia rima com monotonia, seria coincidência?). Mas quem diria, ferido por ela, a fera caiu. E estava difícil levantar. Para conseguir teve que buscar forças e ir ao encontro da sua verdadeira, primeira e sanguínea paixão.

Hoje, juntos desde março de 2005, consolidaram e vivem bem mais do que uma paixão. Transformaram aquele fogo, aquela atração, em verdadeiro amor. Amor sublime, sincero, verdadeiro, infindável como todo amor, e altruísta. Rodrigo não espera retorno, não quer se locupletar de seu amor. Tampouco acha que tem muito a oferecer, mas sabe que não quer – e nem pode – viver separado dela.

Rodrigo trabalha com eletrônica, numa operadora de telefonia celular. Talvez nunca venha a exercer a profissão que tanto ama. É possível que ela jamais desfrute do que ele teria para oferecer, mas eles vão assim, lado a lado num eterno amor, num namoro que jamais vai acabar. Estão, agora, de casamento marcado para o dia 9/jan/2009, quando ele se forma às 21:00h, no prédio 41 da PUC do Rio Grande do Sul, em Jornalismo.

Os frutos dessa união, senhoras e senhores, podem se consumar nas folhas do seu jornal, nos pixels de fotos, nos bits das telinhas ou nas maravilhosas e mágicas ondas do rádio. Ou pode ser que não, que esse casamento não receba as bênçãos do mercado de trabalho. Mas uma coisa é certa, entre esses dois, nunca mais vai haver separação!

Fazendo arte!

13/05/2008

 

Não, não estou falando de peraltices infantis e nem propagandeando o nome de alguma creche ou pré-escola. O que acontece é que estamos fazendo, para a cadeira de Cinema II, um curta metragem.

 

É…, isso mesmo, um filme! A realização inclui elenco profissional, trilha sonora autorizada, roteiro, produção e direção. Eu assino, ou assinarei, o roteiro e a direção. (pobres atores, técnicos, colegas e espectadores!)

 

E acreditem, caros cyberleitores, a coisa tá ficando bem legal. Ontem tivemos o primeiro ensaio com o elenco. Ainda é cedo pra se ter certeza, mas acho que pode funcionar. O certo é que só desse tempinho lidando com esse filme, já surgiram mais duas ou três histórias que filmografei aqui nessa minha louca caixola. Quem sabe???

 

Bem, a sétima arte que me perdoe, mas vou acometê-la de mim!

 

Sexta-feira iniciaremos as gravações. Aguardem e saberão, por aqui, como as coisas andam. Só espero que a indústria da pirataria se encarregue de nos tornar mais um fenômeno de mídia e de bilheteria.

 

Até mais… na calçada da fama!!! (e não estou falando da Padre Chagas)

E por falar em saudade…

07/05/2008

Texto escrito um tempo depois de perder minha mãezinha. Era madrugada, estava num bar, sozinho, creio. Foi no Marinho, o antigo, fechado com grades, só para os de casa. Ele leu, chorou, meu amigo. Colocou no mural de curtiça que ficava na parede/biombo que escondia os banheiros…

Dias atrás meu amigo Tiago, do http://www.telhadotiago.wordpress.com me lembrou desse texto, aqui em Salvador.

Domingo eu que me lembrei dele. Todos os dias ele me é atual!

Aí está…

Uma saudade que dói…

Na manhã das minhas lembranças, mãnhas, pergaminhos, redemoinhos.

Minha mainha, cheirinho, cozinha, cominho. Rainha!

Agora, aqui… eu indo, vinho vindo. Sou niño, pequeno. Querendo ninho, pequeño, sonhar buenos sueños.

Idéias iam, vinham. Mundo duro, maduro, mauzinho.

Ir pro ninho, sozinho, tadinho. Melhor um gole, um barzinho! Não quero soninho, mundo mesquinho.

Só aquele colinho, onde os olhos se fecham, os sonhos caminham, ganham guarida, carinho.

Beijem suas mães por elas, por vocês… e por mim!

Soluções wireless

06/05/2008

 

Maravilha isso de tecnologia, né?

Você, por exemplo… onde está agora?

Me lê no seu desktop, note, palm, telefone, lan house, aifoune?

Não sei… tudo é possível. Principalmente com essas tais de tecnologias sem fio!

Eu, por exemplo, estou agora no banheiro. Note à mão, bateria carregada, conectado à internet.

 

Assim posso escovar os dentes e postar no blog, tudo isso enquanto faço um download!

 

Continuação…

06/05/2008

(…) Quando paravam os choques, vinham as perguntas. Mas, meu silêncio continuava. Eu só pensava que ali estava terminando minha vida, porque achava que estava morrendo. Com o tórax soqueado, sentindo o sangue na boca, percebi que se movimentavam. Fui colocada no pau de arara.

Conheci o terror da dor física violenta, quase insuportável, e a dor de alma diante daquele horror que eu jamais imaginara que pudesse existir, embora já tivesse lido sobre relatos de torturas. Eram pontapés na cabeça e choques por todo o corpo. Minha indignação cresceu violentamente quando resolveram queimar minha vagina e meu útero. Enfiaram os fios e deram muitos choques. A dor, raiva, ódio, misturados com um sentimento de impotência, criavam-me um quadro assustador. E eu seguia muda. A raiva era tanta que não conseguia gritar, o que veio a me causar muitos danos psíquicos posteriores. Pendurada de cabeça para baixo no pau de arara, a lucidez continuava total. Lembrava-me a todo momento que estava ali em conseqüência de meu compromisso político e, naquele momento, para mim era o fim. Quando eu pensava que estava morrendo, eles me tiravam dali e me entregavam para policias femininas que me obrigavam a me mexer. Eu perdi os movimentos das pernas e dos braços e não conseguia articulá-los. Então elas me arrastavam. Quando achavam que já estava melhor, eles me penduravam novamente. O sangue jorrava e eles enfiavam a mão pela minha vagina com jornais. Colocaram uma bacia no chão e o sangue continuava a cair. Molhavam meu corpo e me arrebentavam com socos e choques. Não sei quanto tempo isso durou nem quantas vezes aconteceu esse ritual macabro. Assombrava-me ao perceber que, nos intervalos, eles comiam, conversavam, como se há instantes não tivessem cometendo aquelas atrocidades.

Para poder escrever o que estou escrevendo tive que ser atendida no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, por um psiquiatra logo na saída da prisão. Fui atendida no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Seguiram-se muitos anos de psicoterapia, principalmente um trabalho de psicopedagogia com a psicopedagoga Alicia Fernández onde iniciei o processo de recuperação da memória. Há quase dez anos entrei em análise, com a psicanalista Miriam Möller, não só para sair de uma amnésia, como para recuperar minha identidade e poder conviver com esse horror todo.

Lembro-me que os gritos dos torturadores foram se tornando cada vez mais fracos e quando me dei conta, estavam me fazendo massagem no coração, possivelmente após uma parada cardíaca. Ali acabaram de quebrar o seio, osso do tórax, como mais tarde vim a saber, após ser tirada radiografia no hospital. Passaram uma luz intensa nos meus olhos, usaram amoníaco para reanimar-me e eu ouvi “Não reage”. Eu já tinha sido examinada pelo médico que indicava quando podiam continuar a tortura. Mas, dessa vez, não foi possível porque entrei em coma.

Fui levada para o Hospital Militar e fiquei em coma oito dias. Depois disso, fui levada para o DOPS novamente. Muito mais magra e uma chaga só, fui colocada no meio de uma roda de companheiros. Senti uma dor violenta. Como estavam ali ? E tantos. Os torturadores me mostravam cada um deles e me perguntavam se eu os conhecia. Eu nada respondia. Passei por todos e não tendo dito que os reconhecia voltei para a sala de torturas. A pancadaria recomeçou, Depois de um tempo percebi que Hervelha não me perguntava nada. Pedi para falar com um de meus companheiros e soube que muita coisa tinha sido dita. Ameaçaram levar-me para o Guaíba (eu conhecia o caso das mãos amarradas…) e, analisando a melhor saída, naquele eu disse “Meu nome é Regina”. E fiz um surto . Completamente descontrolada chorei muitas horas compulsivamente, sentindo-me morta. Eu tinha a convicção de morrer e não dizer nada. A tortura não atinge somente o corpo, mas também a alma e a mente humana. Deram-me algo de remédio e fui me acalmando. Não sei quanto tempo isso durou. Escrevi o relatório com alguns dados. Quando notavam incoerências, buscavam-me novamente para interrogatórios, sempre acompanhados de ameaças de tortura. Assim foi até julho.

Lembro-me que me deram muitos remédios. Eu tinha ficado com muitos problemas. O osso do tórax já estava cicatrizado, embora frágil ainda. Estava com infecção no útero e fui levada numa clínica. Mas havia remédios em demasia. Remédios que me dopavam. Insisto nisso, porque preciso saber mais sobre os efeitos disso.

Assim fui levada para OBAN (no DOI-Codi ) em São Paulo. Lá tiraram-me toda a medicação. Hoje, sei os efeitos disso. Alucinei. Para mim, torturas na OBAN não puderam ser de porradas, porque minha saúde estava frágil. A “equipe de inteligência” deve ter sugerido torturas psicológicas, com a máquina da verdade, pressões de muitas maneiras, já descritas. De uma delas, eu lembro-me agora. Havia uma equipe comandada por Mangabeira, um sujeito muito supersticioso. Ele me levou para “falar com o Diabo”, num ambiente enfumaçado. Hoje, até chego a achar graça, mas, no estado em que estava, era terrificante, porque eu não sabia como viria o golpe. Mas, eu disse que o Diabo que me aparecia não era como o que ele me descrevia e nunca mais fui interrogada por ele”…

(continua num próximo post)