Marcas criadas a ferro e fogo

Eu precisava produzir uma crônica para uma revista, algo editorialmente mais sério e científico, eu acho. Mas não consigo fugir muito de mim mesmo, ou seja, do escracho, da ironia e da tentativa de fazer alguma graça. Talvez o encomendador não ache o tom do texto adequado para a linha editorial da publicação, mas acho que pra cá ele se aplica…

 

Quero escrever sobre o gaúcho, mas não estou me referindo ao gaúcho de fato e de direito, ao cidadão nascido na mais meridional das unidades da federação. Estou falando dele, do gaúcho, daquele que você – e o mundo – conhecem bem. Falo do homem especial, diferente, bravo, forte e valente que habita, não só o chão de onde as façanhas servem de modelo a toda terra, mas também o imaginário dos pampeanos de toda essa querência amada do céu de anil. E mais, que se espalha, derrama e espraia, como diria um bigode balançante, para além dos recortes geográficos do Mampituba.

Esse mito simbólico e intangível povoa e inunda, com toda a justiça, de gauchismo cidadãos desde o Oiapoque, passando por Cariri do Tocantins – que em Cariri do Tocantis todos devem ser muito tocados pelo gauchismo, é claro – e chega ao Chuy. Quem dirá então ao Chuí. Pois esse Super-homem pré e pós-moderno, tem como seu mais íntimo companheiro, o cavalo. A adaga, a guaiaca, a cuia, a bomba, a chaleira e a chinoca – que alguns forasteiros costumam tratar, desavisadamente, de mulher – até têm certa importância, mas nada comparado ao seu fiel escudeiro, o cavalo.

O cavalo tem para o gaúcho uma importância e uma exclusividade capaz de fazê-lo acreditar – o gaúcho, é claro – que a qualidade do seu animal é única. E, sempre, melhor do que a de qualquer outro cavalo existente. O gaúcho, na verdade, faz com a imagem do animal, o que a partir de algum ponto obscuro da história, se fez com a imagem do próprio gaúcho. O gaúcho tem, ou pode ter, muitos cavalos, mas todos eles têm um cavalo que é o seu cavalo. Algo como a bolita joga dos meninos ou o conjunto de cinco Marias das meninas.

Uma vez eleito melhor cavalo da tropa, o animal – estou falando do quadrúpede – passa a ser o que, na música, seria chamado de cavalo de trabalho. Ele é pau para toda obra, é o cavalo de montaria, de serviço, o cavalo da lida do campo – que todo gaúcho vive no campo – como se sabe. O homem gaúcho acredita, pois sabe – e tem toda a razão – que esse cavalo é soberano. Sim, é. E todo “cavalo de lida” – vamos chamá-lo assim para evitar problema com as gravadoras – tem direito a nome próprio.

Chegar ao posto de cavalo de lida não é fácil, o irracional precisa provar ao outro que é mesmo especial. O quadrúpede precisa ser tão forte, valente e único, quanto o mega-homem que maneja suas rédeas. Pensando na unicidade e na onipotência – que só o seu cavalo tem – todos os gaúchos dão o exclusivo nome de Pingo, aos seus fiéis companheiros. Nome tão diferenciado quanto suas funcionalidades para o gaúcho. Aliás, as mesmas exercidas pelos cavalos há milênios pelos quatro cantos da terra onde as condições de clima e relevo favoreceram o uso deles pelo ser humano.

Mas no Rio Grande é diferente. Aqui no Rio Grande os cavalos têm mesmo um papel fundamental, único, diferente e inovador. Como nunca em lugar algum. Olha, fosse Vinícius de Moraes um gaúcho – e crêem alguns, pela genialidade do Poetinha, deveria ser! – sua célebre frase sobre a amizade teria sido: O uísque é o melhor amigo do homem. O uísque é o cavalo engarrafado.

A supervalorização e a crença do gaúcho em abstratos e intangíveis signos, fizeram que ele criasse e acreditasse numa marca superior também para o eqüino. Bobagem. O cavalo está para o gaúcho exatamente como o jegue está para o nordestino. E lá se dedica o devido valor ao simpático animal. Teve jegue que rendeu filme brasileiro premiado em Cannes. Porém, no nordeste, parece que o valor do bichinho não vai além do real. No sul vai! Em contrapartida a fidelidade do gaúcho para com o cavalo não é tão grande quanto a do bicho com ele. Basta ver a marca de propriedade feita a ferro e fogo do primeiro sobre o segundo.

Pensando bem, o cavalo no Rio Grande do Sul deve mesmo representar muito mais do que representou a todos os povos que se utilizaram – da mesma forma que os gaúchos – dele. Talvez isso seja realmente verdade. Se no Rio Grande se acredita que o homem gaúcho tem um papel e uma representação maior do que qualquer outro homem ao largo da superfície terrestre, porque não se deveria acreditar que o cavalo também tem? O que se espera é que, ao menos o animal, saiba que nenhuma das duas coisas é verdadeira.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: