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Lembrar para JAMAIS reviver!

13/04/2008

Duro e longo texto, mas muito, muito, muito importante ser lido

Nilce Azevedo Cardoso foi presa no dia 11 de abril de 1972, ficando por 2 meses detida no DOPS/RS. Durante esse período de torturas, esteve em coma, sendo levada para atendimento em local que não sabe precisar. Transportada para São Paulo, ficou um mês no DOI-CODI, retornando para o DOPS/RS, onde permaneceu até ser libertada em 20 de julho do mesmo ano, passando a sofrer, durante muito tempo, de amnésia. Não chegou a ser indiciada ou julgada pela Justiça Militar, sendo inocentada por falta de provas. Produziu para o depoimento a seguir. A mãe de Nilce, ao lê-lo, escreveu a carta reproduzida ao final.

“Sim, meu pai, também posso dizer: Nossa luta não foi em vão.”

Nilce Azevedo Cardoso

Meu pai me perguntou se tinha valido a pena tanta dor. Na época, eu só respondi que sabia com o que eu estava comprometida e quais seriam as conseqüências. Agora, propondo-me a escrever sobre as torturas que me foram impostas, essa pergunta aparece novamente. Passados trinta anos, o sentimento que me assalta é de esperança e, ao mesmo tempo, de horror.

Esperança de que o que fizemos continue a dar frutos, porque, apesar de tudo o que nos aconteceu, fizemos a história avançar, porém nenhum torturador e, principalmente, seus mandantes, foram julgados ou condenados. Acreditávamos e continuo acreditando na necessidade de construirmos um mundo sem exploradores e explorados, onde o ser humano pudesse e possa viver como ser humano, numa sociedade solidária e cidadã, uma sociedade socialista.

Outro sentimento que me assalta é de horror. Porque temos que falar disso que nos machucou tanto? Lembro-me de Gorky quando foi perguntado para falar dos horrores que passou na infância. Ele teria dito algo como: enquanto toda a humanidade não souber do que se passa, a história se repete. Assim, proponho-me a falar um pouco do que se passou.

Nascida no interior de São Paulo, na cidade de Orlândia, morei durante minha adolescência em Ribeirão Preto. Fui para a capital fazer faculdade de Física. Entrei na Universidade de São Paulo em 1964, em pleno golpe. Desde meu ingresso, pude saber que minha vida jamais seria a mesma. Comprometida com o Movimento de Educação de Base, admiradora de Paulo Freire, entrei na JUC (Juventude Universitária Católica), tendo feito parte da Direção Nacional. Participei dos movimentos políticos durante a faculdade, tendo conhecido a violência do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) nos embates da Maria Antônia – a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo ficava na rua Maria Antônia, em frente à Faculdade Mackenzie. Também participei da resistência que fizemos em defesa do CRUSP (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo), onde morei durante meu curso na faculdade.

Esses foram anos de uma vivência política muito rica e educativa. Terminei a faculdade, tendo entrado, em 1967, para a então AP (Ação Popular), depois Ação Popular Marxista Leninista, porque queria seguir em frente com minhas convicções políticas. Comprometia-me cada vez mais com a melhoria de vida do povo brasileiro e assim identificava-me ideologicamente com as classes populares.

O ano de 1968 foi um marco para mim como o foi para todos aqueles que militavam nessa época. Decidi conhecer de perto a luta da classe operária. Casei-me e fomos morar no ABC. Fui trabalhar, como operária, na Rhodia, fábrica de linhas em Santo André.

Seguindo o caminho de uma vida clandestina, vim para Porto Alegre, em 1969, tendo ido trabalhar na fábrica Renner, também como operária. Por motivo de segurança resolvi retomar o magistério como nos anos de faculdade, quando lecionava Física. Aqui em Porto Alegre, eu lecionava matemática quando caí presa.

Em 11 de abril de 1972, fui seqüestrada numa parada de ônibus, jogada no banco traseiro de um carro e, aos bofetões, levaram-me para a escuridão das dependências do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) onde fui imediatamente encapuzada. Por ter participado da seção de Serviços (mensageira entre o comando nacional e regionais) e por ter sido membro do Comando Regional da AP, em Porto Alegre, eu já sabia o que me esperava. Entretanto, nenhum conhecimento teórico pôde antecipar o horror das torturas. Ainda encapuzada conduziram-me para uma sala, onde as primeiras palavras que ouvi foram: ‘tira a roupa’.

O delegado Pedro Seelig, chamado por Cacique, junto com Nilo Hervelha e outros, de que ainda não me lembro os nomes, arrancaram minhas roupas, com palavras de depreciação, na tentativa clara de baixar a minha auto-estima. Perguntaram meu nome e eu disse: Nilce Azevedo Cardoso. Vieram então socos de todos os lados. Insistiram na pergunta, com socos na boca do estômago e do tórax. Mal podendo falar, eu disse que meu nome estava na carteira de identidade. Aumentou a violência. Ligaram fios e vieram os choques. Fiquei muda daí para a frente.

(Continua num próximo post…)

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